20 Dec
Jogos de distinção e lógica da exclusão: gentrificação de uma favela do Rio
Lido 496 vezes | Publicado em Artigos Científicos | Última modificação em 21-12-2017 15:04:54
 
Favela do Vidigal no Rio de Janeiro
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Este artigo da Revista e-metropolis nº 31 analisa como a realização de grandes eventos internacionais acelerou a repercussão de fenômenos urbanos globais em certas favelas da cidade do Rio de Janeiro, e como alguns desses territórios populares se tornaram atrativos para novos tipos de moradores, tipificados como “neofavelados”. A presença desses indivíduos, frequentemente apresentados como gentrificadores, pode favorecer restruturações das configurações sociais locais. Com base em observações empíricas, são colocadas considerações transescalares no tocante à relação indivíduo-território, estilos de vida e novas formas de segregação urbana.

O artigo "Jogos de distinção e lógica da exclusão: problematizando o conceito de gentrificação a partir de uma favela urbanizada do Rio de Janeiro", assinado por Nico Quirion, é um dos destaques a Revista e-metropolis nº 31.

Nico Quirion (lattes) é mestre em Política, Espaço e Sociedade pela Universidade de Rennes II (França); e doutorando em Planejamento Urbano e Regional pelo IPPUR/UFRJ.


REVISTA E-METROPOLIS Nº 31

 

INTRODUÇÃO

No seio de uma cidade onde a circulação de bens, ideias e pessoas é fluida e intensa, o senso comum costuma atribuir às favelas uma série de caraterísticas que as distinguem do resto do espaço urbano. Ora estigmatizadas como lócus de pobreza e violência, ora valorizadas enquanto incubadoras de culturas urbanas emergentes ou, ainda, categorizadas como territórios de sobrevivência de certo habitus comunitário, as favelas cariocas aparecem embrulhadas por um denso tecido de representações polifônicas; sejam elas produzidas pelas mídias, as artes, os discursos políticos, as narrativas nativas ou, também, as ciências sociais (VALLADARES, 2005).

Receptáculos históricos dos excluídos produzidos pela sociedade pós-escravagista e pelo êxodo rural, as favelas nasceram à margem das dinâmicas do desenvolvimento urbano formal e da legalidade, mantendo ambivalentes relações para com os poderes públicos. Depois do abandono do ideal de erradicação que vigorou durante boa parte do século XX, com destruições particularmente numerosas durante a primeira parte da ditadura militar (VALLADARES, 1978), as favelas passaram progressivamente a ser beneficiadas por um esforço incremental de urbanização, ao passo que lhes eram concedidas sérias garantias legais de permanência (GONÇALVES, 2013).

Com o decorrer do tempo, e sob os efeitos dos melhoramentos realizados tanto por parte dos próprios habitantes quanto das autoridades, certas favelas (ou pelo menos determinadas localidades dentro daquelas) foram adquirindo qualidades urbanísticas relativamente satisfatórias, podendo às vezes superar aquelas dos bairros populares periféricos ou de certos conjuntos habitacionais sociais. Sem surpresa, os assentamentos situados no coração da principal zona de concentração de riqueza da cidade, a Zona Sul, foram os que se beneficiaram (proporcionalmente) do maior esforço de urbanização (CAVALLIERI; VIAL, 2012: p.4).

Por estarem situadas na vizinhança imediata de bairros nobres, com relativa facilidade de acesso às amenidades da centralidade (emprego, infraestruturas de saúde, de educação ou de lazer, patrimônio natural e cultural etc.), o valor do mercado imobiliário informal em certas favelas conheceu uma progressiva inflação, tanto para aluguel como para compra. Alvos principais da controversa política dita de "pacificação", algumas dessas favelas experimentaram, em um primeiro momento, um melhoramento de certos indicadores de segurança (CANO, 2012). No entanto, a estabilidade e a eficácia desse processo estão hoje fortemente questionadas, com base na crise profunda que afeta o modelo de controle territorial pela força simbolizado pelas Unidades de Polícia Pacificadora (UPP).

Em virtude de tácita convenção social, a moradia nos assentamentos populares informais, genericamente considerados como perigosos e insalubres, parece “ vocacionalmente” reservada a pessoas de baixa extração social e costuma ser fortemente repulsiva para categorias mais abastadas. Ora, de alguns anos para cá, a circulação e a instalação de novos indivíduos visivelmente oriundos de meios socioeconômicos relativamente elevados em algumas favelas situadas nas proximidades das centralidades urbanas do Rio de Janeiro (especialmente na Zona Sul, a mais valorizada econômica, cultural e simbolicamente) constituíram um fato chamativo, amplamente comentado pelos mais diversos observadores (GAFFNEY, 2013).

Desde uma perspectiva liberal, esse fenômeno emergente deixou conjeturar uma ruptura para com o modelo de segregação em vigor no Rio de Janeiro, baseado na tradicional dicotomia entre “morro” e “asfalto”. Em contraste, uma crítica de inspiração mais social vislumbrou nessa progressiva integração das favelas pelo mercado um risco pela permanência dos moradores mais vulneráveis, no seio de assentamentos construídos pelos seus próprios esforços. Entre essa polarização ideológica fundamental e o aporismo imposto pelas escassas possibilidades de controle do mercado imobiliário em territórios onde o poder normativo da lei permanece fraco, poucos estúdios se debruçaram (a nosso ver) sobre o aspecto empírico da questão desde uma perspectiva microssociológica.

Partindo dessa constatação, o presente artigo se articula ao redor de duas perguntas principais:

1) Que fatores socioantropológicos podem repelir ou, ao contrario, favorecer a opção de moradia em favelas urbanizadas por parte de novos habitantes oriundos de um meio socioeconômico considerado como mais elevado?

2) Quais mecanismos de inclusão ou de exclusão podem ser revelados pela instalação de novos moradores em assentamentos informais populares dentro dos quais — não obstante uma aparenta homogeneidade — certas divisões estão previamente inscritas no território?

Longe de querer esgotar as questões em um texto tão breve, optamos por uma abordagem crítica do conceito de distinção elaborado por Pierre Bourdieu (1979) e por aplicar uma leitura localizada dos mecanismos de exclusão intracomunitários desvendados por Elias e Scotson (2000).

Acesse o artigo completo no site da Revista e-metropolis.

 

 



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