29 Apr

O Neoliberalismo: história e implicações

Àqueles que consideram brilhante a análise que Harvey faz do capitalismo no século XX em seu livro Condição Pós-moderna, certamente para seu mais novo livro, O neoliberalismo: história e implicações fará uma leitura formidável. Na segunda parte do livro de 1989 – a que o autor chama de a transformação político-econômica do capitalismo do final do século XX – Harvey faz uma análise minuciosa dos processos que envolveram o capitalismo no século XX. Na época, Harvey encerrou essa segunda parte sem dar a certeza de que essa acumulação flexível era de fato um novo estágio do capitalismo ou se seria apenas uma transição. O distanciamento no tempo, o desenrolar dos acontecimentos, hoje, permitiu ao autor explicar com clareza o que foi esse período e quais suas implicações políticas, econômicas e principalmente sociais. É isso que este livro, em nossa opinião, representa: uma continuação da análise iniciada em Condição pós-moderna.

 HARVEY, David. O Neoliberalismo: história e implicações. Tradução: Adail Sobral e Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Edições Loyola, 2008.

Por Willian Magalhães de Alcântara – Licenciado em Geografia (UFPE), Mestrando em Geografia no PPGEO/UFPE

      
      Àqueles que consideram brilhante a análise que Harvey faz do capitalismo no século XX em seu livro Condição Pós-moderna, certamente O neoliberalismo: história e implicações será uma leitura formidável. Na segunda parte do livro de 1989 – a que o autor chama de a transformação político-econômica do capitalismo do final do século XX – Harvey faz uma análise minuciosa dos processos que envolveram o capitalismo no século XX, descrevendo desde o período fordista, passando pelo keynesianismo até um estágio do capitalismo a que ele denomina acumulação flexível. Na época, Harvey encerrou essa segunda parte sem dar a certeza de que essa acumulação flexível era de fato um novo estágio do capitalismo ou se seria apenas uma transição. O distanciamento no tempo, o desenrolar dos acontecimentos, hoje, permitiu ao autor explicar com clareza o que foi esse período e quais suas implicações políticas, econômicas e principalmente sociais. É isso que este livro, em nossa opinião, representa: uma continuação da análise iniciada em Condição pós-moderna. Acreditamos que a não leitura do primeiro livro não comprometa o entendimento e a apreciação do segundo, contudo, ler previamente a segunda parte do Condição Pós-moderna fará a leitura de O Neoliberalismo ser bem mais interessante. Acrescentamos ainda que, no contexto da atual crise do capitalismo, este livro representa uma explicação objetiva e crítica das origens da financeirização da economia global, bem como esclarece quais são os interesses envolvidos, quem são os beneficiados, quais as estratégias utilizadas e os males advindos de todo o processo. Em resumo, é uma leitura obrigatória para aqueles que pretendem ter um entendimento crítico do capitalismo e de suas implicações na atualidade.
       Em sua introdução, Harvey faz uma breve descrição do que o neoliberalismo representa e, é a partir dessa descrição que todo o conteúdo do livro vai se desenvolver: tudo será uma análise decorrente dessa apresentação inicial. Sendo assim, acreditamos ser conveniente transcrever as palavras do autor, dada a precisão com que consegue sintetizar o tema: “O neoliberalismo é em primeiro lugar uma teoria das práticas político-econômicas que propõe que o bem-estar humano pode ser melhor promovido liberando-se as liberdades e capacidades empreendedoras individuais no âmbito de uma estrutura institucional caracterizada por sólidos direitos a propriedade privada, livres mercados e livre comércio. O papel do Estado é criar e preservar uma estrutura institucional apropriada a essas práticas; o Estado tem de garantir, por exemplo, a qualidade e integridade do dinheiro. Deve também estabelecer as estruturas e funções militares, de defesa, da polícia e legais requeridas para garantir direitos de propriedade individuais e para assegurar, se necessário pela força, o funcionamento apropriado dos mercados. Além disso, se não existirem mercados (em áreas como a terra, a água, a instrução, o cuidado de saúde, a segurança social ou a poluição ambiental), estes deverão ser criados, se necessário pela ação do Estado. Mas o Estado não deve aventurar-se para além dessas tarefas. As intervenções do Estado nos mercados (uma vez criados) devem ser mantidas num nível mínimo, porque, de acordo com a teoria, o Estado possivelmente não possui informações suficientes para entender devidamente os sinais do mercado (preços) e porque poderosos grupos de interesse vão inevitavelmente distorcer e viciar as intervenções do Estado (particularmente nas democracias) em seu próprio benefício.” (p. 12)
       O primeiro capítulo (Liberdade é mais uma palavra...) dedica-se a analisar a construção da ideologia de liberdade, tanto exaltada pelos neoliberais, e responsável, em grande parte, pelo sucesso da difusão do neoliberalismo. Segundo Harvey, “nenhum modo de pensamento se torna dominante sem propor um aparato conceitual que mobilize nossas sensações e nossos instintos, nossos valores e nossos desejos, assim como as possibilidades inerentes ao mundo social que habitamos.” (p. 15). Dessa forma, para alcançar seu objetivo, as figuras fundadoras do pensamento neoliberal fizeram uso de dois conceitos muito fortes que possibilitaram tornar o neoliberalismo o ideal dominante: a dignidade e a liberdade individuais. Sustentavam que esses valores supremos estavam ameaçados de diversas formas, quer pelos regimes autoritários, quer pela intervenção do Estado. A partir desses ideais, puderam consolidar as possibilidades de construção das estruturas neoliberais. Foi esse ideal de liberdade, por exemplo, que, depois de desmascarada a acusação de existência das armas de destruição em massa, justificou as ações americanas no Iraque (a liberdade que seria conferida ao povo iraquiano justificaria a guerra). Desde a invasão até o pacote de medidas neoliberais que permitiu a abertura do país ao capital corporativo, bem como a evasão de divisas, ou seja, a espoliação do Iraque, a liberdade foi a bandeira hasteada pelos americanos.
      Harvey questiona o porquê da virada neoliberal. Como resposta, indica que após a Segunda Guerra o mundo precisava criar uma nova situação para que não houvesse um retorno às condições críticas que ocasionaram a crise dos anos 1930. Assim, entre os principais eventos, houve o acordo de Bretton Woods, a criação de instituições como a ONU e o FMI, bem como foi colocado em prática o “liberalismo embutido”, caracterizado por uma maior participação do Estado na economia e aumento da integração política do poder sindical da classe trabalhadora e apoio à negociação coletiva (aprofundamento das práticas keynesianas). Tais medidas geraram taxas de crescimento relativamente elevadas nas décadas de 1950 e 1960, contudo não foram suficientes para superar a crise dos anos 1970. A partir dessa crise, houve a exigência de novas práticas que viabilizassem a continuidade do capitalismo. Nesse contexto, prevaleceram as medidas de cunho neoliberais (privatizações, abertura de mercados, precarização das relações de trabalho) que, com o passar do tempo, deixaram claro que o neoliberalismo surgiu mais como uma estratégia de recuperação do poder de classe do que uma saída para o capitalismo.
A ascensão da teoria neoliberal pode ter suas origens atribuídas a um pequeno grupo de defensores das idéias neoliberais (economistas, historiadores e filósofos acadêmicos – entre eles, Milton Friedman) que se reuniu em torno do filósofo político austríaco Friedrich Von Hayek e criou a Mont Pelerin Society em 1947. Essa associação tinha como fundamento a crença na liberdade baseada na propriedade privada e no mercado competitivo. Essa liberdade seria capaz de, naturalmente, criar condições de bem-estar para todos. Esse grupo passou a obter apoio financeiro e político por parte “(...) de indivíduos abastados e líderes corporativos visceralmente contrários a todas as formas de intervenção e regulação do Estado (...)” (p. 31). Além disso, sua influência cresceu no meio acadêmico, chegando ao auge com o Nobel de economia ganho por Hayek em 1974 e por Friedman em 1976. A teoria neoliberal alcança uma variedade de campos políticos e se consolida como nova ortodoxia econômica nos Estados Unidos e na Grã Bretanha no final dos anos 1970. A partir daí, os dois países promovem uma revolução em políticas fiscais e sociais que terão efeitos no restante do mundo: enfrentamento do poder sindical, ataque a todas as formas de solidariedade social que prejudicassem a flexibilidade competitiva, desmantelamento dos compromissos do Estado de bem-estar social, privatização de empresas públicas, redução de impostos para as classes altas, promoção da iniciativa dos empreendedores e criação de um clima de negócios favorável para induzir um forte fluxo de investimento externo.
    Outro acontecimento também deu forte impulso ao processo de neoliberalização: um acordo pós crise do petróleo, presumivelmente sob pressão militar, entre os sauditas e os Estados Unidos fez com aqueles concordassem em reciclar seus petrodólares por meio dos bancos de investimentos de Nova York. Dentre as possibilidades de investimentos, esses bancos acreditavam que os mais rentáveis seriam os empréstimos aos governos do mundo em desenvolvimento. E, assim, havendo governos ansiosos para se endividar, “os fundos excedentes reciclados pelos bancos de investimento de Nova York se dispersaram pelo globo.” (p. 37). É desnecessário lembrar que os empréstimos foram feitos com taxas vantajosas para os tais bancos e que, sendo a dívida em dólar, qualquer pequena alteração na taxa de juros americana poderia levar à inadimplência.  E foi o que aconteceu com o México em 1982, quando da elevação da taxa de juros pelo Banco Central americano. Naquela ocasião, os Estados Unidos descobriram uma maneira de, se aliando ao FMI, permitir que os países endividados rolassem a dívida e, em contrapartida, esses países tivessem de “implementar reformas institucionais como cortes nos gastos sociais, leis de mercado de trabalho mais flexíveis e privatização.” (p. 38). Tais reformas permitiam condições favoráveis à exploração por parte das grandes corporações, bem como a transferência de riqueza dos países pobres para os ricos via FMI. Essa passou, então, a ser a prática para todos os demais devedores, fazendo com que uma série de outros países adotasse práticas neoliberais.
    Sob outro aspecto, segundo Harvey, o neoliberalismo representou a recuperação do poder de classe. Dois processos possibilitaram esse fato. Em primeiro lugar, temos a mudança na política de pagamento dos CEOs (Chief Executive Officers) - gerentes - pelas corporações: estes passaram a receber em opções de ações, tornando-se também proprietários das empresas. “Então, o valor das ações tomou o lugar da produção como guia da atividade econômica e, como mais tarde se evidenciou com o colapso de empresas como a Enron, as tentações especulativas resultantes disso podem se tornar avassaladoras.” (p. 41). Além disso, as privatizações e a abertura de mercados permitiram o surgimento de novas possibilidades de empreendimento, de forma que fortunas foram feitas de maneira relativamente rápida em campos como as tecnologias da informação e biotecnologia. Surgiram novas possibilidades de comprar barato e vender caro, bem como uma diversidade de setores que foram privatizados, como o caso das telecomunicações, que possibilitaram a acumulação de algumas fortunas e a concentração de riqueza para alguns privilegiados.
    Harvey encerra o capítulo contrapondo a idéia de liberdade defendida pela teoria neoliberal e o que ela representa na prática. Afirma que ela representa a liberdade para que o mundo seja um lugar melhor para uma elite privilegiada. E questiona: “como, então ‘o resto de nós’ aquiesceu tão facilmente a esse estado de coisas?” (p. 47)
    No segundo capítulo (A construção do consentimento), Harvey explica os processos, assim como apresenta alguns acontecimentos, que tornaram as idéias neoliberais parte do senso comum, parte do revestimento cultural que possibilitou o consentimento popular. Justifica o autor: “Fortes influências ideológicas circularam nas corporações, nos meios de comunicação e nas numerosas instituições que constituem a sociedade civil – universidades, escolas, igrejas e associações profissionais. A ‘longa marcha’ das idéias neoliberais nessas instituições, que Hayek concebera já em 1947, a organização de bancos de idéias (apoiados e financiados por corporações), a cooptação de certos setores dos meios de comunicação e a conversão de muitos intelectuais a maneiras neoliberais de pensar – tudo isso criou um clima de opinião favorável ao neoliberalismo como garante exclusivo da liberdade. Esses movimentos mais tarde se consolidam com o domínio dos partidos políticos e, em última análise, o poder do Estado.” (p. 49 – 50)
    Outro fator que auxiliou os neoliberais foi a cooptação dos ideais defendidos pelos movimentos do final da década de 1960 (estudantis e trabalhistas). Tais movimentos lutavam por “liberdade individual” e “justiça social”. Contudo, Harvey faz a crítica de que tais ideais não são conciliáveis. Assim, houve a apropriação da idéia de liberdade individual pelas corporações que a utilizaram como oposição à intervenção Estatal. Acresce-se a isso, o incentivo dado a uma cultura da liberdade de escolha de produtos e de estilos de vida e, desse modo, uma vinculação ao impulso cultural chamado “pós-modernismo”.
Harvey descreve nesse capítulo a contradição entre buscar liberdades individuais e lutar pela justiça social a partir da análise do caso dos Estados Unidos e da Grã Bretanha nos anos 1970.
Apresenta alguns acontecimentos importantes para o neoliberalismo nos Estados Unidos:
1)    A união das grandes corporações americanas em torno da Câmara de Comércio e o apoio aos bancos de idéias, bem como o vínculo com a comunidade acadêmica a fim de promover seus interesses (os homens de negócios unem-se enquanto classe);
2)    A crise financeira de Nova York nos anos 1970 e o oportunismo dos banqueiros que se recusaram a rolar a dívida forçaram a administração municipal a uma série de ajustes de cunho neoliberal que causaram a decadência dos sistemas públicos de saúde e transportes e altas taxas de desemprego. “A administração da crise fiscal de Nova York abriu caminho para práticas neoliberais, tanto domesticamente, sob Reagan, como internacionalmente por meio do FMI na década de 1980.” (p. 58)
3)    O vínculo das corporações com os partidos políticos por meio dos Comitês de Ação Política (CAPs). A aliança do Partido Republicano com a direita cristã, defendendo os interesses conservadores. A ambivalência do Partido Democrata: o compromisso por um lado com as bases populares e por outro com as corporações.
4)    A eleição de Reagan e a série de medidas que permitiram as privatizações: a desregulação do mercado de trabalho com a reversão das legislações que eram favoráveis aos trabalhadores e a redução de impostos para as classes altas. Além disso, o forte apoio a Wall Street.
    Na Grã Bretanha a mudança sob Thatcher foi mais difícil. Apesar das privatizações, da precarização das relações de trabalho, do apoio ao capital financeiro e aos investimentos externos, setores como saúde e educação continuaram públicos. Tal dificuldade se deveu ao fato de que na Grã Bretanha havia um Partido Trabalhista forte e uma série de conquistas sociais que já estavam enraizadas na concepção dos britânicos.
    “Reagan e Thatcher lançaram mão dos indícios de que dispunham (do Chile e de New York) e se colocaram à frente de um movimento de classe determinado a restaurar seu poder. Sua genialidade esteve na criação de um legado e de uma tradição que envolveram políticos que os sucederam numa teia de restrições de que não era fácil escapar. Seus sucessores, como Clinton e Blair, pouco mais podiam fazer além de continuar a boa obra da neoliberalização, quer isso os agradasse ou não.” (p. 73)
    No capítulo 3 (O Estado neoliberal), Harvey dedica-se à apresentação das características gerais do Estado neoliberal. Existem algumas características mais gerais que, em teoria, definem esse tipo de Estado: o Estado neoliberal deve favorecer fortes direitos individuais à propriedade privada, o regime de direito e as instituições de mercados de livre funcionamento e do livre comércio; promoção da privatização de ativos; embora a liberdade pessoal e individual no mercado seja garantida, cada indivíduo é julgado responsável por suas próprias ações e por seu próprio bem-estar, do mesmo modo como deve responder por eles; a livre mobilidade do capital entre setores, regiões e países é julgada crucial; e, os teóricos neoliberais têm uma profunda suspeita com relação à democracia.
Apesar disso, de um modo geral, algumas tensões e contradições acabam por ser inerentes ao neoliberalismo: o problema da interpretação do poder de monopólio; o fracasso de mercado; o pressuposto neoliberal de perfeito acesso a informações e de igualdade de condições na competição; deturpação no processo de busca de novos produtos tecnológicos; “(...) contradição entre um individualismo possessivo, mas alienante, e o desejo de uma vida coletiva dotada de sentido.” (p.79)
O Estado neoliberal na prática apresenta algumas dificuldades para que seja feita uma descrição do seu caráter geral: “(...) tornam-se rapidamente evidentes desvios do modelo da teoria neoliberal, não se podendo atribuir todos eles às contradições já esboçadas.” (p. 80); “(...) a dinâmica evolutiva da neoliberalização tem agido de modo a forçar adaptações que variam muito de lugar para lugar e de época para época.” (p. 80). Além disso, a restauração do poder de classe distorce a teoria neoliberal em dois pontos principais: “em caso de conflito, o Estado neoliberal típico tende a ficar do lado do clima de negócios favorável em detrimento seja dos direitos (e da qualidade de vida) coletivos do trabalho, seja da capacidade de auto-regeneração do ambiente.” (p. 81); “(...) em caso de conflito, os Estados neoliberais tipicamente favorecem a integridade do sistema financeiro e a solvência das instituições financeiras e não o bem-estar da população ou a qualidade ambiental.” (p. 81)
Harvey encerra esse capítulo alertando para a perigosa ascensão de um grupo que pretende solucionar os problemas do neoliberalismo; os neoconservadores. “Os neoconservadores americanos são favoráveis ao poder corporativo, à iniciativa privada e à restauração do poder de classe. O neoconservadorismo é, portanto, perfeitamente compatível com o programa neoliberal de governança pela elite, desconfiança da democracia e manutenção e das liberdades de mercado. Mas ele se afasta dos princípios do puro neoliberalismo, tendo remoldado práticas neoliberais em dois aspectos fundamentais: em primeiro lugar, na preocupação com a ordem como resposta aos caos de interesses individuais e, em segundo, na preocupação com uma moralidade inflexível como o cimento social necessário à manutenção da segurança do corpo político vis-à-vis de perigos externos e internos.” (p. 92) “Os neoconservadores enfatizam assim a militarização como remédio para o caos dos interesses individuais.” (p. 93)
    O objetivo do capítulo 4 (Desenvolvimentos geográficos desiguais) é analisar os casos de alguns países em seu processo de neoliberalização. Aqui Harvey considera que é difícil elaborar um mapa geral dos movimentos de neoliberalização no cenário mundial, uma vez que cada país representaria uma forma única de como tendências mais amplas se vincularam a transformações locais. No entanto, considera importante ressaltar que “fortes impulsos de neoliberalização emanaram de uns quantos epicentros mais importantes e até foram orquestrados por eles.” (p. 97). Reconhece o Reino Unido e os Estados Unidos como os líderes desse movimento, mas salienta que mesmo nesses países a virada neoliberal apresentou problemas e que se as práticas neoliberais representaram por um lado a queda da inflação e o aumento da taxa de juros, por outro proporcionaram elevadas taxas de desemprego sem corresponder a altos níveis de crescimento econômico. Harvey lembra que os casos japonês, alemão e dos “tigres asiáticos”, nos quais não houve reformas neoliberais amplas, demonstram que é “(...) difícil alegar que a neoliberalização no cenário mundial progrediu como paliativo  comprovado para a estagnação econômica.”
    Além disso, Harvey volta a lembrar que o neoliberalismo representou na verdade uma recuperação do poder de classes e apresenta quatro componentes que tiveram papel essencial nesse processo: a virada para uma financialização mais aberta; a crescente mobilidade geográfica do capital; o complexo Wall Street-FMI-Tesouro dos Estados Unidos dominando a política nos anos Clinton forçando muitos países em desenvolvimento a seguir o caminho neoliberal; e a difusão global da nova ortodoxia econômica e monetarista. Lembra ainda que sob o neoliberalismo “as crises financeiras eram tanto endêmicas quanto contagiosas.” (p. 103) Faz menção à crise latino-americana dos anos 1980, à “crise da tequila” que atingiu o México em 1995 e à crise asiática nos fins dos anos de 1990 que teve implicações globais. A partir dessas considerações, Harvey levanta a hipótese de que a crescente desigualdade social considerada subproduto da neoliberalização pode ter sido desde o começo sua razão de ser.
Nesse capítulo, Harvey apresenta uma curta retrospectiva do que representou o processo de neoliberalização nos seguintes países: México, Argentina, Coréia do Sul e Suécia. Demonstra que em todos os casos os resultados foram: aumento das desigualdades sociais, recuperação do poder de classes e atendimento aos interesses internacionais (em particular, Wall Street).
Reforça a crítica de que na maioria das análises que são feitas sobre o processo de neoliberalização global, “descarta-se como demasiado conspiratória a possibilidade de que as crises financeiras sejam causadas pela recusa em investir, pela fuga de capitais ou pela especulação financeira ou a possibilidade de que essas crises sejam deliberadamente arquitetadas para facilitar a acumulação por espoliação, mesmo diante de inúmeros indícios suspeitos de ataques especulativos a esta ou àquela moeda.” (p. 125). Ressalta a necessidade “(...) de um arcabouço teórico mais abrangente para interpretar os caminhos complicados e geograficamente desiguais da neoliberalização.” (p. 125)
    O capítulo 5 (Neoliberalismo “com característica chinesas”) é dedicado inteiramente ao caso chinês. Aqui é apresentada a trajetória chinesa de crescimento nos últimos 30 anos por meio da abertura de seu mercado para o capital internacional e adoção de algumas medidas de cunho neoliberal. O processo iniciado por Deng Xiaoping em 1978, após a morte de Mao, permitiu que capitais externos fossem aplicados em empreendimentos chineses. O que diferencia o caso de neoliberalização chinês dos demais é a forte presença do Partido Comunista que via no desenvolvimento econômico mais uma forma de fortalecimento político do que propriamente um fim em si. Nesse sentido, os chineses não permitiram a entrada do capital especulativo, bem como mantiveram a condição estatal dos bancos e um forte controle sobre o sistema financeiro. Além disso, os investimentos externos deveriam obrigatoriamente acontecer de forma direta em associação com empresas chinesas, permitindo a apropriação do conhecimento pelos chineses. Os mais beneficiados com isso a princípio foram os empreendedores chineses de Hong Kong que há algum tempo construíram contatos globais e conheciam as minúcias do mercado chinês.
    Harvey destaca a contradição que esse modelo de crescimento criou em relação às populações rurais que nesse processo mantiveram condições precárias de vida. A diferença de renda entre a população rural e a urbana aumentou muito e, além disso, as populações foram expropriadas de suas terras e tiveram acesso negado às cidades, criando uma massa de trabalhadores ilegais explorados.
    Além disso, destaca o surgimento do poder de classe por meio dos executivos das estatais privatizadas que receberam parte dos ativos das empresas e que por muitas vezes fizeram uso de meios ilícitos para valorizarem esses ativos em benefício próprio (em muitos casos por meio de empréstimos aos bancos, causando prejuízos ao sistema financeiro chinês). Também cita que membros do Partido Comunista tornaram-se empreendedores, comprometendo a orientação do partido. Além disso, o setor imobiliário apresentou grande crescimento, proporcionando o enriquecimento de investidores. Contudo, há indícios de uma possível bolha nesse setor por conta do excesso de capacidade excedente. Outra fonte de acumulação de riqueza na China é a superexploração da força de trabalho, caracterizada por salários baixos e condições de trabalho despóticas e exploradoras, o que tem provocado constantes protestos.
    Harvey encerra o capítulo com algumas preocupações quanto ao rumo da neoliberalização chinesa: “(...) o autoritarismo, o apelo ao nacionalismo e a retomada de certas pressões de cunho imperialista sugerem que a China pode estar caminhando, ainda que de uma direção bem distinta, para uma confluência com a maré neoconservadora que hoje percorre com vigor os Estados Unidos. Isso não constitui um bom augúrio para o futuro.” (p. 163).
    O capítulo 6 (O neoliberalismo em julgamento) é dedicado à análise do paradoxo neoliberal. Harvey desmistifica todo o argumento neoliberal de que o neoliberalismo é a melhor saída. Questiona o fato de que as duas maiores potências econômicas (EUA e China) vêm adotando práticas keynesianas (presença forte do Estado apoiando as corporações e impondo práticas protecionistas), em um mundo que deveria supostamente ser regido por regras neoliberais. Além disso, volta a enfatizar que o neoliberalismo, enquanto defensor do sacrossanto direito de propriedade e de lucro, representa o instrumento da classe alta na manutenção de seus privilégios em detrimento do empobrecimento do resto do mundo.
Na análise das realizações neoliberais, Harvey prova que as taxas de crescimento global são decrescentes durante o período neoliberal, ou seja, a neoliberalização em larga escala não conseguiu estimular o crescimento mundial. Na verdade, em muitos casos, os resultados foram perdas catastróficas (queda de renda per capita, aumento da pobreza, diminuição da expectativa de vida etc.). Por outro lado, demonstra que países que não adotaram as reformas neoliberais na íntegra alcançaram melhores resultados diante dos cenários de crise. Diante disso, por que a neoliberalização convence tantos de que obteve grande sucesso? Harvey aponta dois motivos: “(...) a volatilidade dos crescimentos geográficos desiguais se acelerou, permitindo que certos territórios avançassem espetacularmente a expensas de outros.” (p. 169); “(...) a neoliberalização, o processo, não a teoria, foi um enorme sucesso do ponto de vista das classes altas.” (p. 169)
    Acresce-se a isso o fato de que “houve sem dúvida algumas espetaculares mudanças de ênfase sob a neoliberalização, o que lhe dá a aparência de um incrível dinamismo. A ascensão das finanças e dos serviços financeiros teve como paralelo uma notável mudança na remuneração das corporações financeiras, bem como a tendência, entre as corporações maiores (como a General Motors), de fundir as duas funções. (...). Houve ao lado disso uma extraordinária expansão das tecnologias da informação (TIs).” (p. 169 - 170). “A principal realização substantiva da neoliberalização foi no entanto redistribuir, em vez de criar, riqueza e renda.” (p. 171) A essa redistribuição, Harvey dá o nome de “acumulação por espoliação” e apresenta suas principais práticas: a mercadificação e a privatização da terra, bem como a expulsão pela força de populações camponesas; a conversão de várias formas e direitos  de propriedade em direitos de propriedade exclusiva; a supressão dos direitos aos bens comuns; a mercadificação da força de trabalho e a supressão de formas alternativas de produção e consumo; processos coloniais, neocoloniais e imperiais de apropriação privada de ativos; a monetização do câmbio e a taxação, principalmente da terra; o comércio de escravos; e a usura, a dívida nacional e o aspecto mais devastador de todos: o uso do sistema de crédito como meio radical de acumulação por espoliação. O Estado desempenha um papel fundamental nesses processos, diante de seu poder de monopólio no uso da violência e na regulação legal. Acrescenta ainda que a acumulação por espoliação apresenta quatro características principais: privatização e mercadificação; financialização; administração e manipulação de crises e redistribuições via Estado.
Em relação à mercadificação de tudo proporcionada pelo neoliberalismo,    Harvey faz uma pesada crítica ao modo como os neoliberais distinguem a mão-de-obra e o ser humano detentor dela. A transformação das pessoas em mercadorias provoca processos de desarticulação social e de criação de um “(...) mundo de mercados de trabalho flexíveis e contratos de curto prazo, de inseguranças crônicas no emprego, perda de proteções sociais e com freqüência trabalho debilitante, em meio ao desmonte das instituições coletivas que um dia proporcionavam um mínimo de dignidade e apoio.” (p. 183) Diante da ausência das articulações sociais baseadas nas instituições democráticas, a força de trabalho “(...) se volta inevitavelmente para outras formas institucionais  por meio das quais construir solidariedades sociais e exprimir a vontade coletiva. Tudo prolifera – de gangues e cartéis criminosos a redes de narcotráfico, mini-máfias, chefes de favelas, cultos seculares e seitas religiosas, passando por organizações comunitárias, organizações de defesa das tradições e organizações não-governamentais.” (p. 184)
No tocante às degradações ambientais, Harvey afirma que há variação das práticas neoliberais. Contudo, aponta os EUA e a China como os maiores poluidores atuais, em virtude de sua orientação para um crescimento econômico que despreza a sustentabilidade dos recursos do planeta. Além disso, ressalta a pressão sofrida por países mais pobres para permitirem a exploração de suas florestas, bem como o fato de que a preocupação do neoliberalismo reside exclusivamente no lucro.
Em relação à garantia dos direitos sob o neoliberalismo, Harvey faz uma pequena análise do aquecimento do debate sobre direitos humanos depois de 1980 e de como “a preocupação neoliberal com o indivíduo põe em segundo plano toda preocupação democrática social com a igualdade, a democracia e as solidariedades sociais.” (p. 190). Há por parte do neoliberalismo uma preocupação no sentido de que os problemas sejam resolvidos pelo recurso à ação legal, por via do judiciário e do executivo, e, nesse sentido, as pessoas mais necessitadas não têm recurso para defender seus direitos. Daí o surgimento das ONGs que, segundo ele, possuem atuação questionável. Por outro lado, há a questão dos direitos universais largamente exaltados, mas que, sob o neoliberalismo, escamoteia as verdadeiras necessidades das pessoas. Foram esses ideais que justificaram a invasão do Iraque, enquanto que ao povo iraquiano foi negado o direito de auto-determinação, por exemplo.  O neoliberalismo tem deturpado o sentido positivo da justiça como um direito. Harvey defende que “as lutas políticas em torno da concepção de direitos adequada, e mesmo da própria liberdade, passam ao primeiro plano na busca de alternativas.” (p. 195)
    O sétimo e último capítulo (As perspectivas da liberdade) retoma a crítica ao princípio de liberdade exaltado pelo neoliberalismo. A liberdade enquanto mera defesa da livre iniciativa e do livre mercado não pode representar de fato liberdade. Opõe a isso a idéia do presidente Rossevelt quando, em 1935, afirmou que “os americanos têm de rejeitar essa concepção de riqueza, que, por meio de lucros excessivos, cria um poder privado indevido.” (p. 197). Ressalta a oposição entre esse ideal e os defendidos pelos neoliberais e em particular pelo presidente Bush. Lembra que teóricos como Amartya Sem, o próprio Marx e Adam Smith apresentam perspectivas de liberdade bem diferentes, perspectivas que provam que o neoliberalismo é um fracasso monumental. Aos que ficam foram do mercado restam pobreza, fome, doença e desespero, tendo como alternativas a informalidade ou atividades ilegais. Nesse contexto surgem as mais diversas formas de organização em oposição ao sistema neoliberal. Afirma ainda que têm surgido sinais de descontentamento mesmo entre aqueles que um dia defenderam o neoliberalismo e que, estes hoje sugerem um retorno ao keynesianismo.
    Em grande parte desse capítulo, de forma resumida, Harvey descreve a situação de crise que vem se instalando nos Estados Unidos: crise do balanço de pagamentos, rápida depreciação da moeda, instabilidades na valorização dos ativos internos, inflação crescente, pouco crescimento do número de empregos, estagnação do nível de salários e problemas incipientes com fuga de capitais. Harvey esboça o quadro das implicações disso para os americanos no plano interno e externo, bem como vislumbra alguns cenários possíveis, considerando, por exemplo, as conseqüências da ascensão dos neoconservadores (iniciada com Bush) que defendem uma exacerbação do militarismo e do nacionalismo. O que é interessante aqui é que, embora o Harvey tenha publicado o livro em 2005, sua análise é capaz de prenunciar a crise global a que hoje assistimos.
    Harvey encerra sua análise de forma humilde e sensata. Afirma que não há uma resposta já formulada que corresponda a uma alternativa única ao neoliberalismo, mas que, na verdade, “(...) precisamos antes dar início a um processo político capaz de nos levar a um ponto em que possamos identificar alternativas viáveis, possibilidades reais.” (p. 212). Nesse sentido, há dois caminhos que podemos trilhar: “podemos nos engajar com a pletora de movimentos de oposição que já existem e buscar destilar de seu ativismo e por meio dele a essência de um programa de oposição de base ampla. Ou podemos recorrer a exames teóricos e práticos de nossa situação atual (...). Trata-se de iniciar um diálogo entre aqueles que seguem um caminho e aqueles que seguem o outro e, assim, aprofundar a compreensão coletiva das coisas e definir linhas mais adequadas de ação.” (p. 212)
    Reforça a afirmação de que o neoliberalismo representa um instrumento de recuperação de poder de classe e que os diversos movimentos que tem lutado de forma isolada contra aspectos específicos do sistema neoliberal precisam encontrar o ponto comum que une suas lutas. É preciso atacar o sistema em suas bases e encerra: “há uma perspectiva muitíssimo mais nobre da liberdade a ser conquistada do que aquela que o neoliberalismo prega. Há um sistema muitíssimo mais valioso de governança a ser construído do que aquele que o neoconservadorismo permite.” (p. 220)
    A compreensão de todas as artimanhas do neoliberalismo que o livro do Harvey permite constitui-se numa importante contribuição ao pensamento crítico a respeito do capitalismo.  Representa não só uma ótima referência para os acadêmicos que tenham interesse pelo tema, mas também um importante instrumento a ser utilizado pelos diversos movimentos que fazem oposição aos neoliberais. Sem dúvida que, se as informações contidas nesse livro pudessem alcançar a todos os atingidos por essa espoliação generalizada, haveria a possibilidade do surgimento de uma indignação maior e, quem sabe, de uma mobilização capaz de materializar o sonho, não só do Harvey, mas de muitos, de construção de um mundo mais justo.